Geraldo Ferreira: “Não se limite mais do que a tua limitação te limita!”

“Eu não estou aqui para facilitar as vida de ninguém!” Essa é uma emblemática frase do ator, diretor e preparador corporal Geraldo Ferreira. Prestes a completar 30 anos de carreira, nesta entrevista ele relembra parte de sua história pessoal, seus grandes momentos nas artes cênicas, muitos até bem humorados.

Ferreira fala de sua experiência na Cia Teatral Olhos de Dentro, grupo pioneiro em inclusão de pessoas com deficiência no mundo das artes. E, após essa trajetória vitoriosa, perguntado sobre que conselho ele daria a quem está se iniciando no mundo das artes cênicas, Geraldo Pereira responde com segurança: Que tenha seriedade, responsabilidade, comprometimento e, principalmente, respeito pela profissão. Respeito com o diretor, com os colegas de elenco, com o público, pois dependemos e precisamos uns dos outros“.

1 – Conte um pouco de sua história pessoal, suas origens?

Eu, Geraldo Ferreira, o filho caçula dos cinco que tiveram Da. Dionísio e o Sr Brás. Seu Brás, a quem eu vim conhecer/re-conhecer  depois de 12 anos.  Minha mãe separou do meu pai eu era muito pequeno. Separou, pegou a mim e foi pra cidade grande, deixando os outros quatro irmãos para trás.

Nasci em Minas Gerais, Vinte Alqueires. Uma cidade tão pequena que não pude trazê-la nos documentos, pois não tinha cartório (rsrsrs). Assim tive que ser registrado na cidade mais próxima: Porto Firme. Uma vez na cidade grande, fui abandonado, largado, cuidado, quase adotado por outras pessoas e famílias.

Aliás, eu preciso falar de uma família: Seu Aluísio, Da. Teresinha e seus seis filhos. Pessoas que, por mais que eu agradeça nunca será o suficiente. Toda minha formação, em todos os sentidos, eu devo a eles. Foi ela, Da. Teresinha, quem correu comigo, criança, para a Santa Casa de Misericórdia, por incontáveis vezes, onde fiquei internado por onze meses para que fossem  feitas as correções possíveis na anomalia do meu braço direito que era mais grave do que aparece hoje. Quase fui adotado, de papel passado, por eles. De coração eu sei que fui eu sou até hoje. Mas isso é uma outra história.

Como a adoção fracassou, tive que voltar para minha mãe. Mas não durou muito  (rsrs).  Fui embora de casa, depois de uma discussão feia com ela, com 13 pra 14 anos, com a promessa de nunca mais voltar. A vida foi dura, me bateu bastante, mas eu aguentei e resistir.

Como diz Lulu Santos (que parece ter ouvido as palavras de minha mãe quando sai de casa) na canção Minha Vida:  “…Você vai se arrepender, Pois o mundo lá fora, num segundo te devora. Dito e feito mas eu não dei o braço a torcer”. E nunca mais voltei.

Estudei, casei, formei-me técnico em contabilidade, separei, divorciei, fiz faculdade de letras até o quinto semestre, faltou grana pra fazer o último semestre e concluir.  Hoje, dentro do meu conceito de felicidade, eu sou feliz.

2 – O que lhe levou às artes cênicas e como foi o começo, sua formação?

Quando criança, eu admirava os atores e atrizes da televisão, os cantores e os artistas de todas as áreas. Eu brincava achando que era Sérgio Cardoso, Paulo Autran, Grande Otelo, Tarcisio Meira (meu ídolo maior desde Irmãos Coragem) e eu queria ser igual a eles (rsrs). Isso me levou para artes cênicas. Até os 23 anos, eu já tinha passado, discretamente, pelo mundo das artes. Já tinha desenhado, pintado umas telas, escrito uma porção do poemas… Mas ainda faltava atuar… Sim, porque não vou considerar a  peça que, modestamente, escrevi, digeri e atuei na época do colégio (rsrs).

Em 1989, depois de muito relutar, diante da insistência da minha esposa na época, eu resolvi fazer um curso de teatro gratuito no Centro Cultural Tendal da Lapa. Na terceira semana de curso, notamos a presença de uma pessoa na sala. Ao final da aula soubemos que era um diretor de teatro, Xico Liberato, que estava ali para selecionar alguns atores para fazer um teste na sua companhia. Eu fui um dos escolhidos. As primeiras palavras dele: “O ator não pode ter medo do ridículo. No palco você pode ser o que quiser”.

Fui, fiz o teste, passei. Fiquei na Cia Star Vagante por seis anos, onde pude ser advogado, político, caipira, deus, cânone, cafajeste, rei, bruxo…  E tantos foram os palcos por onde passei até então.

3 – Desses tantos palcos que você já pisou,  quais os momentos mais marcantes que destacaria tanto como ator quanto diretor?

Contracenando com a atriz Nina Mancin na peça “Assalto Alto”

Sem dúvida um dos momentos marcantes foi a minha estreia. A primeira vez a gente nunca esquece (kkkkk). A peça era “Maria do Ó”; texto e direção de Xico Liberato. No auditório da biblioteca Presidente Kennedy, em Santo Amaro. Eu fazia dois personagens na peça: um político (pra variar, corrupto) e um advogado a serviço do deputado.

Certa vez, numa das apresentações, eu quis diferenciar, ainda mais, um personagem do outro. E resolvi fazer a barba, à seco, entre uma cena e outra. Resultado: me cortei. Não parava de sangrar. E agora o que eu faço? Bem: entrei em cena reclamando do lugar onde a prostituta Maria morava e dizendo que os galhos e os espinhos haviam ferido o meu rosto.

A atriz que fazia  a prostituta ficou apavorada quando viu o sangue. O lado bom de tudo isso foi que a situação deu à cena um caráter mais realista (Kkkkk). Depois dessa minha “percepção de improvisação em cena”, eu vi que tinha jeito pra coisa. E lá se vão 29 anos.

Outro momento marcante, sem dúvida,  foi na apresentação de Édipo Rei, direção de Renato Borghi, no teatro Paulo Eiró em Santo Amaro. Seiscentos lugares e ainda tinha gente sentada no chão. Meu personagem: o bruxo Tirésias. Eu entrei com um figurino todo maltrapilho, com um cigarro pela metade, aceso, escondido entre os dedos; a mão trêmula para que não percebessem a fumaça. Houve uma longa conversa entre Édipo e Tirésias. De repente, no seu transe louco e de rezas de bruxo, eu me abaixei, escondi o rosto e dei uma puxada forte no cigarro, e apaguei a brasa no joelho; levantei e joguei  a fumaça em uma pomba que o Tirésias sempre trazia consigo. Só se ouviu aquele: ÓÓÓÓ… No final do espetáculo as pessoas vieram cumprimentar e queriam saber: DE ONDE VEIO AQUELA FUMAÇA?

A participação no X Festival Nacional de Monólogos em Franca – SP, foi outro grande momento de emoção. Longe de Santo Amaro, num lugar onde ninguém nos conhecia. Um desafio. O texto, Vozes Anoitecidas, de Mia Couto. Ao final do espetáculo público aplaudio de pé por mais de cinco minutos. Muitos elogios pela interpretação. Mas ganhamos apenas o prêmio de melhor texto. Os melhores prêmios ficaram para os grupos e os atores da cidade. O que, pela repercussão do espetáculo em jornais e emissoras de rádio da cidade, resultou numa grande decepção do diretor com o resultado. Assim ele  resolveu não mais increver o grupo em festivais.

Como diretor, ensaie dois espetáculos. Em um deles havia  uma personagem que  entrava em cena ferido de guerra, com dores, sem forças, etc e tal. Mas o ator não estava conseguindo me dar a emoção, a dor do ferimento, o peso do fim da vida que eu queria e que a situação pedia. Foi quando tive uma ideia: perguntei se ele tinha problemas de estômago, gastrite, úlcera, alguma doença na região abdominal? Ele disse que não. Então, sem que ele esperasse, dei-lhe um soco no estômago… Ele gemeu e se contorceu de dor. Eu gritei: É ISSO…. É ISSO  QUE EU QUERO!

Alguns atores da cia acharam genial; outros acharam radical. Foi então que, pelo sim, pelo não, e para preservar a integridade física dos atores (rsrs), resolvi só atuar e/ou ficar como assistente de direção. Era mais seguro para eles (Kkkk).

4 – Quando e como foi a sua chegada à Cia Teatral Olhos de Dentro, assumindo o papel de preparador corporal?

Eu cheguei na Olhos de Dentro em 2005, depois um período de reclusão. Tinha decidido pendurar as mascaras. Mas, como quem subiu num palco uma vez, é difícil sair dele. Resolvi procurar na Internet, grupos de teatro na minha região. Encontrei dois grupos e fui fazer a entrevista. Mas o diretor olhou de um jeito para o meu braço, que me deixou tão constrangido, fiquei tão mal, que nem fui conhecer o outro grupo.

Depois de um tempo, senti que estava faltando alguma coisa e voltei a pesquisar sobre cia de teatro. Foi quando encontrei a Olhos de Dentro. Curso de teatro pra pessoas especiais. Pensei, pode ser legal! Pelo menos ninguém vai me olhar como se eu fosse um extraterrestre. Kkkkk. Liguei para o número de telefone que estava no anuncio e uma pessoa super simpática disse que me esperaria no próximo encontro. Quando eu cheguei, o olhar, o sorriso, o abraço que eu recebi de Nina Mancin, fez com que eu me sentisse em casa. Fui recebido por todos da companhia com muito carinho.

Havia, na época, um exercício que era chamado de lição de casa, que eram apresentar uma cena na semana seguinte. E na primeira semana, eu apresentei Édipo Rei. Levei figurino, adereços cênicos. Alguns alunos, no começo, me acharam metido. Kkkk. Mas o que eu queria na verdade, eles perceberam isso, era estimulá-los, provocá-los.

Quanto ao papel de preparador corporal, eu sempre ouvi dos diretores, e concordo totalmente, que o instrumento de trabalho do ator são o corpo e a voz. E eu sempre fui muito cuidadoso com isso. Então, devagarinho, fui introduzindo essa prática de exercícios de alongamento. Alguns alunos lembravam de mim a semana inteira por causa das dores no corpo. Por outro lado, haviam outros que diziam que não viam a hora de chegar o próximo encontro só para ter as aulas.

5 –Hoje, após todos esses anos na Cia Teatral  Olhos de Dentro, que avaliação e boas lembranças que você faz de toda essa caminhada?

Minha avaliação é de que nada acontece por acaso. Que eu tinha que fazer parte da Cia Olhos de Dentro. Tive o prazer de conhecer várias pessoas, de diferentes personalidades, de caráter diversos, que me fizeram bem em todos os sentidos. Me fez crescer como pessoa, reavaliar meu jeito de ser e de ver a vida, de olhar, de tratar o outro respeitando ainda mais a sua personalidade, dificuldades e limitações. Respeitando sim, mas sempre dizendo: “Não se limite mais do que a tua limitação te limita”.

Ótimas lembranças. Desde o sorriso acolhedor que ganhei na minha chegada; a cada princípio de jornada; todos os processos de criação para chegar ao ápice, que é a apresentação do espetáculo de conclusão do curso.

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